Êxodo Israel Silva

Abraão Hospeda Três Anjos Que O Visitam | Estudo Bíblico Evangélico

Abraão Hospeda Três Anjos Que O Visitam | Estudo Bíblico Evangélico

Esta porção da Bíblia, muito conhecida, inicia com uma das mais famosas cenas da bíblia, o encontro de Abraão com três enigmáticos personagens.

O Gênesis os chama de homens. É somente depois que somos informados que na verdade eles são anjos, cada qual com uma missão específica.

“Depois apareceu-lhe o Senhor nos carvalhais de Manre, estando ele assentado à porta da tenda, no calor do dia E levantou os seus olhos, e olhou, e eis três homens em pé junto a ele.

E vendo-os, correu da porta da tenda ao seu encontro e inclinou-se à terra, E disse: Meu Senhor, se agora tenho achado graça aos teus olhos, rogo-te que não passes de teu servo.” Gênesis 18:1-3

A princípio, este capítulo parece uma narrativa simples, todavia, examinado com mais profundidade, descobrimos o quanto é complexo e ambíguo, composto, no mínimo, de mais de uma seção:

  • Deus aparece a Abraão no verso 1;
  • Já nos versos 2-16 os anjos/homens encontram Abraão;
  • Versos 17-33 Ocorre o diálogo entre Deus e Abraão sobre o destino de Sodoma.

O desenvolvimento desta história está longe de ser claro. Será que há mais de uma cena neste episódio? Quantas seções estão presentes nesta passagem, uma, duas ou três seções?

Há uma grande possibilidade de se tratar de três. Os acontecimentos sequenciais que o texto descreve, passam a percepção de se tratarem de eventos separados.

Primeiro Deus aparece a Abraão para, como explica o rabino Rashi, “visitar o doente”, pois esta cena ocorre após a circuncisão do pai da fé.

Depois chegam os visitantes com a notícia de que Sara teria um filho. Após isso é que se dá o diálogo sobre o juízo e punição do povo de Sodoma e Gomorra. Maimônides Rambam, em seus escritos, sugere que há apenas duas cenas:

O diálogo com Deus e a visita dos anjos, e o primeiro verso seria uma espécie de cabeçalho de todo capítulo. Uma terceira possibilidade seria que todo o texto descrevesse uma única e contínua cena:

Deus aparece a Abraão, mas antes que Ele comece a falar, Abraão visualiza os três estrangeiros e pede respeitosamente que Deus o aguarde, para que ele possa oferecer sua hospitalidade, receber e servir aos homens que passam em frente a sua tenda.

Somente depois que eles se vão, é que o diálogo com Deus é retomado.

“E disse: Meu Senhor(Adonai), se agora tenho achado graça aos teus olhos, rogo-te que não passes de teu servo.” Gênesis 18:3

tres anjos aparecem a abraão

Abraão, Sem saber, Hospedou Anjos.

Agora, é interessante notar que a palavra usada no hebraico para designar “Senhor” no verso 18:3, é Adonai.

A forma como traduzirmos a palavra Adonai no pedido de Abraão, “Meu Senhor(Adonai), se agora tenho achado graça aos teus olhos, rogo-te que não passes de teu servo”, interfere na interpretação de toda esta história.

“Adonai” pode ser uma referência a um dos nomes de Deus. Pode ser traduzido também como “meus senhores” ou simplesmente “senhores”.

Caso a tradução considerada fosse a primeira apresentada, Abraão estaria se dirigindo à Deus. No segundo caso, ele estaria falando com os estrangeiros. É muito importante que venhamos a compreender isto, senão vejamos.

Esta mesma ambiguidade linguística aparece no capítulo 19:2, quando dois dos visitantes de Abraão, agora descritos como anjos, encontram Ló em Sodoma.

“E vieram os dois anjos a Sodoma à tarde, e estava Ló assentado à porta de Sodoma; e vendo-os Ló, levantou-se ao seu encontro e inclinou-se com o rosto à terra; E disse:

Eis agora, meus senhores(Adonai), entrai, peço-vos, em casa de vosso servo, e passai nela a noite, e lavai os vossos pés; e de madrugada vos levantareis e ireis vosso caminho.

E eles disseram: Não, antes na rua passaremos a noite.” Gênesis 19:1-2

Aqui a palavra no texto hebraico para “meus senhores” é também Adonai:

“E disse: Eis agora, meus senhores (Adonai)…” e como não há nenhuma sugestão de que Ló estivesse falando com Deus, fica claro neste caso que a Adonai se referia aos visitantes estrangeiros.

Uma leitura simplista das duas histórias, tanto a de Abraão como a de Ló, nos levariam a conclusão de que a interpretação consistente de Adonai seria “senhores”.

De fato, a maioria das bíblias e traduções do Antigo Testamento tomam essa direção. A tradição e a visão hebraica, que leva em consideração outros aspectos do texto em sua forma original, contudo, tem uma interpretação diferente.

Normalmente as diferenças de interpretação das narrativas bíblicas não têm muitas implicações, são apenas discordâncias simples.

Mas neste caso, se a tradução de Adonai for “Deus”, por se tratar de um nome santo, os escribas teriam uma forma especial de escrevê-lo, trazendo condições especiais que a Lei daria ao documento que o contém.

Se porém o significado fosse “senhores”, então não haveria nenhuma especificação especial ou de santidade na sua escrita.

E examinando a Lei, ela nos mostra que na cena de Ló com os anjos, Adonai é lido como “senhores”, mas no caso de Abraão, Adonai é lido como “Deus”.

Isto é um fato extraordinário, pois sugere que Abraão ao ver Deus nos carvalhais do manre, antes mesmo que Deus falasse, o pede para que esperasse, enquanto ele servia aos seus visitantes.

De acordo com a tradição judaica, esta passagem deveria ser lida do seguindo modo:

Deus aparece a Abraão… ele levanta os olhos e vê três homens diante dele. E quando os vê, ele corre da porta da sua tenda até onde eles estavam para encontrá-los. Então Abraão se curva e se volta para Deus e diz:

“Meu Senhor, se agora tenho achado graça aos teus olhos, rogo-te que não passes de teu servo” [ou seja, por favor espere até que eu sirva estes três homens com hospitalidade]

[Então ele se volta para os três homens e diz:] “Que se traga já um pouco de água, e lavai os vossos pés, e recostai-vos debaixo desta árvore;

E trarei um bocado de pão, para que esforceis o vosso coração; depois passareis adiante, porquanto por isso chegastes até vosso servo. E disseram: Assim faze como disseste.” Gênesis 18:4-5

Como honrar a Deus?

Essa ousada interpretação se tornou a base de um lindo princípio para os hebreus: “A hospitalidade é tão honrosa quanto receber a presença divina“.

Confrontado em escolher entre ouvir Deus e oferecer hospitalidade para o que parecia ser seres humanos, Abraão escolheu a segunda opção.

E o mais extraordinário, é que Deus não ficou aborrecido, aceitou o seu pedido e esperou até que Abraão trouxesse água e comida para seus visitantes, para só então começar a falar sobre Sodoma.

Como pode ser isto? Na melhor das hipóteses, parece desrespeitoso, e na pior, herético, colocar as necessidades de seres humanos em prioridade a atender à presença de Deus.

Entretanto, o que esta passagem quer nos ensinar é algo de imensa profundidade.

Os idólatras do tempo de Abraão adoravam o sol, as estrelas, e as forças da natureza como se fossem deuses. Abraão porém sabia que Deus está além das forças da natureza.

Há apenas uma única criatura em todo o universo, em que Deus pôs a sua imagem, no ser humano, na pessoa humana.

As forças da natureza são impessoais, e aqueles que as adoram perdem a sua humanidade:

“Os ídolos deles são prata e ouro, obra das mãos dos homens. Têm boca, mas não falam; olhos têm, mas não vêem.

Têm ouvidos, mas não ouvem; narizes têm, mas não cheiram. Têm mãos, mas não apalpam; pés têm, mas não andam; nem som algum sai da sua garganta.

A eles se tornem semelhantes os que os fazem, assim como todos os que neles confiam.”
Salmos 115:4-8

Ninguém que adora forças impessoais pode resguardar a sua personalidade apaixonadamente humana, generosa e perdoadora.

É por isso, por que Deus é um ser pessoal, uma pessoa para qual podemos dirigir a palavra, é que nós honramos a dignidade humana como sendo sacrossanta.

Abraão, o pai da fé, conhecia a verdade paradoxal de que ter uma vida de fé é reconhecer os traços divinos na face de seu semelhante, mesmo que este seja um estranho.

É muito fácil receber a presença divina quando Deus se apresenta como Deus. O que é difícil, é sentir a presença de Deus, quando Ele vem na forma de três viajantes desconhecidos.

Essa foi a grandeza de Abraão. Ele sabia que ouvir a Deus e oferecer ajuda ao próximo, eram não duas coisas separadas, mas uma só coisa.

Mais alto que os anjos

Em um dos mais lindos comentários sobre esse episódio, o rabino Shalom Rokeach notou que no verso 18:2, os visitantes são descritos como estando acima de Abraão (nitzavim alav).

Enquanto que no verso 18:8, Abraão é descrito como estando acima deles (omed aleihem).

“e ele estava em pé junto (acima / omed aleihem) a eles” Gênesis 18:8.

A princípio, os visitantes estavam em um nível espiritual mais alto do que Abraão, pois eles eram anjos e Abraão um mero ser humano.

Mas quando ele os serviu, alimentando-os e oferecendo abrigo, ele se tornou espiritualmente mais alto do que os anjos. Esta é um dos mais fundamentais princípios do mundo da fé:

Nós honramos Deus quando honramos a Sua imagem, o ser humano.

“Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; Sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes.

Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos?

Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim.”
Mateus 25:42-45

Sobre o autor | Website

Formado em Hebraico Bíblico, Geografia Bíblica, Novo Testamento, e Estudos do Apocalipse; é Especialista em Estudos da Bíblia, certificado pelo Institute of Biblical Studies da Universidade Hebraica de Jerusalém.

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