Gênesis Israel Silva

Qual é o nome de Deus? Elohim? Yahweh? | Estudo Bíblico Evangélico

Qual é o nome de Deus? Elohim? Yahweh? | Estudo Bíblico Evangélico

Qual é o nome de Deus? Quem é Deus? Como você percebe Deus? Como o Criador? A força primária, a causa de tudo existir?

Quando pensamos sobre Deus, logo vem em nossa mente nomes que têm um potencial maior de descrevê-lo, como Elohim, Elshadai e Emanuel, dos quais Elohim parece receber um melhor destaque, pois este é o primeiro nome que a bíblia traz para Deus em hebraico.

É claro que Deus como Elohim, tem todo poder em suas mãos. Elohim fala de diversas características de Deus, como a sua força, o seu poder e a sua majestade. Mas a bíblia revela que a percepção de Deus pode ir além de poder, força e glória.

Adão e Eva viram o Seu poder, o autor do Gênesis tem uma percepção inicial de Deus como o Elohim. “No princípio criou Deus [Elohim, no hebraico] os céus e a terra.”

Assim, nós em muito compartilhamos dessa visão inicial de Deus, onde os aspectos do seu poder são mais destacados.

Entretanto, se nos prendermos somente a estes atributos, correremos o risco de ficarmos um pouco distante Dele, pois como nos aproximaríamos ou conheceríamos alguém que se revela com tamanha força, em uma luz impenetrável.

Será que existe um outro entendimento, ou uma outra abordagem para se conhecer quem é Deus? Convido você a vir conosco em mais essa viagem pela bíblia, especialmente pelo livro do princípio.

No Gênesis, veremos desde o início do mundo, como era essa percepção, como era o entendimento que os antigos orientais tinham a respeito de Deus e sobre eles mesmos como indivíduos pessoais.

A perfeição no princípio

Para entendermos quem é Deus, precisamos voltar no tempo, bem no início da humanidade. A nossa história começa com eventos muito conhecidos, ocorridos ainda no jardim do Éden.

Lá estavam vivendo juntos o primeiro casal, cercados por toda a riqueza natural da criação.

Estavam em uma total integração com a natureza, não se distinguiam dela nem do meio ambiente. A harmonia era de tal magnitude que não podiam imaginar a existência do mundo sem eles, nem a existência deles sem o mundo.

Adão e Eva possuíam tudo que desejavam, exceto o conhecimento do bem e do mal.

Todos conhecem a história, eles comem do fruto proibido, seus olhos são abertos, e perdem a sua inocência, passam a sentir vergonha de estarem nus e se escondem quando ouvem a voz de Deus.

Adão põe a culpa em sua esposa, e esta culpa a serpente. O resultado é óbvio, a expulsão do paraíso.

Este episódio é muito rico em suas implicações e pode nos trazer pistas importantes sobre quem é Deus, a sua natureza e a percepção humana sobre o Criador.

Neste sentido, há características nesta história que precisamos estudar mais de perto, para termos uma melhor compreensão.

Mudança inesperada

Assim, em Gênesis 3:16-17, a mulher recebe como sentença de que “com dor darás à luz filhos”. Adão é destinado a uma vida de intenso e laborioso trabalho.

A partir deste ponto no texto, seguem três versículos que parecem não ter muita conexão entre eles. De fato, eles parecem estar fora da sequência lógica da história.

“No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás”,

É seguido por:

“E chamou Adão o nome de sua mulher Eva; porquanto era a mãe de todos os viventes. E fez o SENHOR Deus a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu.”

É aqui que aparece o problema. Adão tinha acabado de culpar sua esposa por levá-lo a pecar. Ele também tinha sido condenado à mortalidade. Porque então, a essa altura dos acontecimentos, ele daria um novo nome a ela?

E porque imediatamente após isso, no momento em que eles estão para serem expulsos do paraíso, Deus faz um ato de bondade para com este casal dando-lhes roupas, cobrindo sua nudez, trazendo-lhes dignidade?

“E chamou Adão o nome de sua mulher Eva; porquanto era a mãe de todos os viventes.”
Gênesis 3:20

“E fez o SENHOR Deus a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu.”
Gênesis 3:21

Primeiro, o clima estava pesado, com palavras de sentença e condenação. Mas os versos que se seguem mostram que os ânimos sofrem uma mudança misteriosa.

Aquele sentimento amargo presente no texto anterior, logo se dissolve, e surge um novo clima de gentileza entre Adão e sua mulher, e entre Deus e o casal humano.

O rabino Rashi (o maior exegeta da Bíblia, judeu francês nascido em 22 de fevereiro de 1040 – 1105), ficou tão perplexo com essa transformação no texto, que foi levado a pensar que esses versos estavam fora da sequência cronológica.

Consciência da própria finitude

As palavras “porquanto és pó e ao pó retornarás”, despertaram em Adão, pela primeira vez, a consciência de sua mortalidade.

Não existe maior autoconhecimento do que este, de que o mundo um dia existirá sem nós, e nós não estaremos mais no mundo.

Um choque para Adão, que até então não se distinguia da natureza, estava em total integração com o mundo no jardim, onde ele, a mulher e a criação pareciam formar uma unicidade, sendo cada um deles percebidos como extensão do outro, em um complemento perfeito.

Mas agora ele vê que sua vida é finita, um microssegundo no contexto da eternidade.

O Gênesis é silencioso sobre os pensamentos de Adão, entretanto, até certo ponto podemos supor o que se passava e tentar reconstruí-los para continuarmos nessa busca por entender quem é Deus.

Até aquele ponto a morte não fazia parte da consciência de Adão, mas agora ele estava face a face com ela. Certamente ele morreria um dia.

Mas e se mesmo sendo mortal, ele pudesse de alguma forma ter uma continuidade neste mundo? Como fazer para que ao menos alguma parte dele sobrevivesse nesta terra?

Foi aí que o homem lembrou das palavras que Deus disse à mulher. Ela daria à luz filhos, com dor, mas ela traria nova vida ao mundo.

E repentinamente, Adão percebeu que embora morramos, temos o privilégio de ter filhos, e assim, algo de nós continuará vivo: nossos genes, nossa influência, nosso exemplo e os nossos ideais.

Essa é a nossa “forma” de imortalidade, gravando nossos ideais no coração de nossos filhos, e eles nos seus, até o fim dos tempos.

Auto conhecimento que leva a Deus

Existe porém uma grande diferença entre a imortalidade pessoal e aquela que alcançamos por meio de nossos descendentes. Esta última não podia ser alcançada sozinho.

Adão até aquele momento, pensava em sua esposa apenas como uma “ezer kenegdo”, “ajudadora idônea” em hebraico, uma assistente, “esta será chamada mulher [ishah], porquanto do homem [ish] foi tomada. Gênesis 2:23″.

Ele via a mulher como uma extensão dele mesmo. Mas agora, sem ela Adão não poderia ter filhos. E filhos seriam a sua contribuição, a sua forma de, em certo modo, atingir a “eternidade”.

Com essa consciência, ele deixa de vê-la como apenas uma auxiliar, e passa a enxergá-la como uma pessoa em si mesma, mais até do que ele, pois é ela quem tinha o poder de gerar vida.

Neste sentido, a mulher era mais como a semelhança de Deus do que o próprio homem, pois tinha semelhante capacidade de trazer nova vida ao mundo.

E assim que Adão pôde refletir sobre estes novos fatos, acaba toda recriminação que podia ter.

Ele vira-se para sua mulher e pela primeira vez a vê como uma pessoa independente dele, e lhe dá um nome pessoal, Eva, que significa “Ela, quem gera a vida“.

“E chamou Adão o nome de sua mulher Eva; porquanto era a mãe de todos os viventes.”
Gênesis 3:20

É difícil traduzir em palavras a importância desse evento. Não se trata de que o homem tenha dado à sua esposa um nome, anteriormente quando Deus a trouxe diante dele, e agora tenha simplesmente mudado o seu nome por um novo.

Trata-se de que anteriormente, Adão não tinha dado nenhum nome à ela. Ele a chamava de ishah, “mulher”, que é um nome genérico para o sexo feminino, não é um nome próprio, não é o nome de uma pessoa.

Ele mesmo também não tinha um nome próprio até este ponto, pois era chamado de ha-adam, “o homem”.

Juntamente com o surgimento de nomes próprios, nasce o conceito de pessoa, com todas as suas implicações e individualidades.

A mais importante verdade ética sobre pessoas é que somos todos insubstituíveis.

Como pessoas nós somos únicos. Deus faz cada ser humano com a mesma imagem, a sua imagem e semelhança, mas cada um de nós somos diferentes uns dos outros, e únicos. A vida humana é única e preciosa.

O momento em que Adão olha para sua mulher e lhe dá um nome próprio e pessoal foi um ponto de virada na história da humanidade.

Foi aí então que Deus fez vestimentas para os cobrir no Éden, vestimentas de luz, pois traziam dignidade ao casal.

Somente quando nos relacionamos uns com os outros como pessoas que possuem dignidade, respeito e reciprocidade é que reconhecemos a imagem de Deus no outro, e passamos a reconhecer quem é Deus, quando enxergamos a dignidade no nosso semelhante.

E a bíblia está cheia de comentários que estendem essa ideia.

Todos os mandamentos de justiça, misericórdia, compaixão, caridade, ajuda ao pobre, amor pelos conhecidos e pelos estrangeiros, e respeito pela sensibilidade dos sentimentos dos outros, estão todos relacionados com o respeito e o reconhecimento do próximo como a imagem e a semelhança Deus.

Deus é uma pessoa e está bem perto, você pode achá-lo em você mesmo, pois a imagem de Deus está em você, e você pode vê-lo em seu próximo, em cada semelhante seu. A revelação de Deus está em compreender o outro.

Esta ideia tem implicações ainda mais profundas. Há uma ligação íntima entre o modo como nos relacionamos com as pessoas e a forma como percebemos quem Deus é.

E esta forma como percebemos quem é Deus está relacionada também como nome pelo qual o conhecemos, se por um nome genérico e impessoal, ou por um nome próprio e pessoal.

Como nós o conhecemos? Como uma força, um poder? Ou como alguém, um ser pessoal que tem sentimentos, que nos ouve e que nos ama?

Elohim ou Yahweh?

Embora haja muitos nomes que tentam descrever Deus, dois são primários e se destacam sobre os outros: Elohim e YAHWEH, que é geralmente substituído pelos judeus ortodoxos por Hashem, “O Nome” [Ha = O , Shem = Nome].

Os fundadores da tradição oral no judaísmo afirmavam que Elohim se refere à justiça divina, YAHWEH à compaixão.

A palavra [El], era muito usada por pagãos, no passado, para denominar um deus, que eles entendiam ser uma força da natureza (o sol, tempestades, o mar, o fogo e muitas outras deidades que eram adoradas no tempo antigo).

Mas a prática monoteísta sempre insistiu que nenhuma dessas forças era uma divindade por si mesmas, mas sim partes ou manifestações de um poder maior que as criou e que sobre elas tem domínio.

O Deus único é a totalidade de todas essas forças. Essa é a ideia representada pela palavra Elohim. É um substantivo coletivo que significa a força das forças .

Elohim é Deus na essência que podemos encontrar nas forças da natureza e na vastidão de toda a criação.

“Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis;” Romanos 1:20

YAHWEH [do tetragrama hebraico YHWH, “Senhor”], em contraste, não é um substantivo, mas um nome, que refere a Deus não somente como poder e força, ou mesmo como a totalidade de toda força e poder, mas que mostra claramente Deus como uma pessoa.

YAHWEH é aquele que fala conosco, para quem nós falamos também. Ele nos ama como pessoas, e ouve as nossas orações, perdoa as nossas falhas, nos dá forças em tempos difíceis, e nos ensina pelos caminhos da vida.

Judah HaLevi, filósofo e poeta judeu do século onze, ensinava que a diferença entre Elohim e YAHWEH é semelhante à diferença entre os deuses pagãos e o Deus de Abraão, Isaque e Jacó.

Um filósofo pode vir a perceber que o universo tem um autor, um criador, uma causa primária, porém só um profeta ou uma nação de profetas podem entender e se relacionar com Deus como uma pessoa.

YAHWEH é Deus que todo joelho se dobrará, e nós o encontramos não somente na criação, mas na revelação.

Mudança na percepção humana de quem é Deus

Voltando ao texto bíblico, notamos um célebre fenômeno: Em Gênesis 1, Deus é descrito como Elohim. Nos capítulos 2 e 3 Ele é chamado de YAHWEH-Elohim. E no capítulo 4, pela primeira vez Ele é chamado de apenas YAHWEH.

Isso porque alguma coisa vai mudando no decurso destes capítulos, não Deus, Ele não muda, o que vai mudando com o tempo é a percepção humana sobre Deus.

No primeiro capítulo, que fala do nascimento do universo e da transformação do vazio em ordem, o homem é parte da natureza, o que é uma verdade, porém parcial. Deus é descrito aqui como Elohim, o autor da natureza.

Nos capítulos 2 e 3 o homem começa a usar a linguagem. Ele se torna, como descrito no Talmud (Targum Onkelos, traduções e comentários bíblicos em Israel e Babilônia), “um ser falante“.

E Deus traz várias formas de vida para ver qual nome que Adão daria a cada um deles.

Mas até este ponto, ele só usa substantivos genéricos e não nomes próprios, inclusive para sua esposa que ele chama de [ishah, “mulher”].

Adão progride da natureza para cultura – para a qual a linguagem é o primeiro passo – mas ele ainda não tinha compreendido o conceito de pessoa.

E é só após Adão dar um nome próprio à sua esposa, compreendendo o conceito de pessoa e de personalidade é que a Bíblia usa somente a palavra YAHWEH para descrever e nomear Deus.

É somente depois que Adão se torna consciente que sua esposa é uma pessoa em si mesma, independente dele, é que ele se torna capaz de entender Deus como uma pessoa.

Estudar a bíblia é muito mais do que descobrir o monoteísmo, é a descoberta de um Deus unificado e singular.

É também a descoberta de que Deus é uma pessoa, e o fato de que nós também somos pessoas, com nossos medos, esperanças e sonhos, prova que não somos produtos da evolução Darwiniana, ocorrida quase que por acidente.

Somos indivíduos únicos, insubstituíveis.

Esse é o conceito revolucionário de quem é Deus, YAHWEH, foi somente quando Adão viu Eva como uma pessoa que ele pôde ver a si mesmo como uma pessoa e assim foi capaz de se engajar em um relacionamento pessoal com Deus.

Foi naquele momento que a humanidade deixou de ser apenas meros seres biológicos e se tornou em “homus religiosus”, “o homem que busca a Deus“, que encontra YAHWEH, “Deus em busca do homem”

Essa é a história dos três primeiros capítulos do Gênesis, a história de como o amor e os sentimentos pelo próximo nos leva ao amor de Deus e a entender quem Ele é, Jesus, uma pessoa assim como eu e você!

Sobre o autor | Website

Formado em Hebraico Bíblico, Geografia Bíblica, Novo Testamento, e Estudos do Apocalipse; é Especialista em Estudos da Bíblia, certificado pelo Institute of Biblical Studies da Universidade Hebraica de Jerusalém.

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